segunda-feira, 7 de junho de 2010

Processo de escolha do logo 2014 gera desconfiança


Processo de escolha do logo 2014 gera desconfiança
iagências de design envolvidas no processo de elaboração da marca da Copa 2014: críticas à falta de transparência
Gian Oddi e Marcel Rizzo,

Marca da Copa de 2014 com as cores que serão apresentadas em 8 de julho.


Marca de 2014 terá cores verde, amarelo e vermelho
Otimista, CBF aguarda Lula para lançar logo de 2014
Exclusivo: logo da Copa do Mundo 2014 remete à taça
CBF também tem escudo registrado na União Europeia
Charges: Milton Trajano explica cor vermelha
O sistema para a escolha do logo da Copa do Mundo de 2014, imagem revelada pelo iG no dia 31 de maio, envolveu dez das maiores agências de design do Brasil, mas nenhuma delas foi a escolhida. Os escritórios especulam que a marca final foi criada por uma agência de publicidade já ligada à CBF e à Fifa, e a falta de transparência no processo de seleção incomoda os envolvidos.

O COL (Comitê Organizador Local) do Mundial no Brasil não informa se os criadores da marca serão conhecidos em 8 de julho, quando ela será divulgada oficialmente em evento na África do Sul, com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O iG conversou com três projetistas envolvidos na seleção, mas que por terem contrato de confidencialidade com a Fifa terão os nomes preservados. O discurso foi o mesmo: os detalhes do processo de escolha são cristalinos até o momento em que as dez agências de design convidadas para concorrer são comunicadas que não foram selecionadas, em fevereiro de 2009. "Depois disso não se sabe o que aconteceu. O que se sabe é que a Fifa e a CBF procuraram agências de publicidade que já trabalharam com elas ou com seus patrocinadores ", disse o designer de um dos concorrentes.

Segundo as regras determinadas pela Fifa no início do processo, cada uma das dez agências de design envolvidas poderia apresentar até cinco opções de marca. Nem todas elas, porém, apresentaram tantas alternativas. “Enviei apenas uma, porque qualidade é mais importante do que quantidade. E, na minha opinião, era melhor do que essa escolhida” , disse um dos participantes.

Não se consegue, após o veto às agências de design, traçar um caminho de como nasceu o desenho vencedor, que teria sido escolhido por um júri de personalidades brasileiras no qual estariam a cantora Ivete Sangalo, a modelo Gisele Bündchen, o escritor Paulo Coelho, o designer Hans Donner, o arquiteto Oscar Niemeyer, o secretário-geral da Fifa, Jerome Valcke, e o presidente da CBF, Ricardo Teixeira. A informação sobre a existência deste comitê de “notáveis”, contudo, não é confirmada oficialmente pela CBF ou pela Fifa.

A ADG Brasil (Associação dos Designers Gráficos do Brasil), com sede em São Paulo, intermediou o contato da Fifa com os escritórios de designer. No dia 1° de junho, depois de o iG divulgar a marca da Copa, a associação enviou um e-mail à Fifa perguntando como foi o processo de escolha a partir do momento em que seus filiados saíram da disputa. "Os participantes nos ligaram querendo saber quem foi o vencedor, como foi o processo final, já que participaram", disse Bruno Lembruger, diretor da ADG.

A resposta da entidade chegou no dia seguinte, em 2 de junho: que afirmasse a todos que o sistema de escolha cabia somente à Fifa e que, em caso de dúvida, enviasse e-mail ao centro de mídia da entidade. A reportagem do iG enviou o email à Fifa nesta segunda-feira e aguarda resposta.

> Veja a charge de Milton Trajano sobre as cores do logo da Copa de 2014

O processo
Em 2008, a Fifa procurou a ADG. Queria selecionar, por meio do portfólio da associação, dez escritórios para realizar o concurso de escolha da marca. Os preferidos foram contatados pela associação para apresentarem até cinco imagens cada. O acordo previa que os desenhos feitos seriam da Fifa, mesmo que rejeitados. E que não poderiam ser divulgados. "É um contrato que você é obrigado a assinar. Não podemos nem contar como foi esse processo de seleção", diz o diretor de um dos escritórios concorrentes.

Em fevereiro de 2009, as agências foram comunicadas que estavam fora da disputa. Isso é praxe em concorrências deste tipo, mas normalmente se eliminam por etapas: algumas em uma primeira rodada, outras em uma segunda, podendo se chegar até um terceiro pleito. A explicação foi que os trabalhos não agradaram e que a Fifa procuraria outra forma de se conseguir a marca ideal.

Um dos rejeitados disse que mesmo se tivesse sua marca escolhida pensaria se assinaria ou não o contrato, considerado pouco vantajoso para a agência. Em caso de problema judicial no futuro, como a acusação de plágio, por exemplo, todo o ônus do processo recairia sobre o designer.

Pré-requisito: a taça
A Fifa e a CBF só vão se pronunciar em 8 de julho. A entidade não permite que se promova uma Copa enquanto a outra estiver em andamento. Apenas três dias antes da final do Mundial da África do Sul é que a marca será divulgada oficialmente e os detalhes do que aconteceu depois que agências de design serem eliminadas poderão ser esclarecidos.


Foto: Reprodução
Marca da Copa do Mundo de 2010, disputada na África do Sul. Logo acima a imagem da taça que remete ao Mundial da Fifa
Para os torcedores que não gostaram do desenho (muitos se manifestaram contrários em redes de comunidade pela internet), ou que acharam falta de criatividade fazer uma logomarca semelhante à taça, uma dos concorrentes vetados explicou: a Fifa impõe como pré-requisito que a marca tenha referência ao troféu.

"A propriedade de uma marca tem que ter uma particularidade que se remete aquilo que ela representa. No caso da Fifa e da Copa é a taça. Se você olhar a marca da Copa da África, verá uma taça pequena ali em cima", explicou o designer (veja ao lado). A entidade passou a identificar a taça "Fifa" como marca das Copas a partir do Mundial do Japão e da Coreia do Sul, em 2002. Em 2006, os rostinhos do desenho alemão tinham uma taça pequena acima, o mesmo que acontece com o jogador sul-africano.

Rio 2016
Os três designers ouvidos pelo iG também criticaram a maneira como foram feitas as inscrições para participar da seleção da marca para a Copa 2014. A Fifa faz um processo diferente do que o COI (Comitê Olímpico Internacional), por exemplo, realiza para os Jogos Olímpicos. Enquanto o COI abre as inscrições para interessados no site oficial do evento, como fez para o Rio 2016, a Fifa procura diretamente os profissionais que interessa à entidade e oferece a eles a oportunidade de criar a imagem.

"O modelo do COI é muito mais transparente. Qualquer um se candidata, com prazos mais bem definidos", disse o diretor de uma das agências que participou do processo para realização da marca da Copa.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Oliver Stone ataca a mídia e diz que "Ao Sul da Fronteira" dá voz aos pobres

Oliver Stone entrevista Hugo Chávez, presidente da Venezuela, no filme "Ao Sul da Fronteira"

LEIA CRÍTICA BLOG DO MAURICIO STYCER VEJA O TRAILER DO FILME Apaixonado pela América Latina, Oliver Stone produziu e dirigiu seis documentários sobre a região, dos quais "Ao Sul da Fronteira" é o mais recente. Com data de estreia marcada para esta sexta (4), o filme fala sobre a mudança na geopolitica latino-americana a partir da ascensão ao poder do presidente venezuelano Hugo Chávez.

Personagem de maior destaque no documentário Chávez é colocado como o paradigma de liderança na América Latina. Depois dele, vários outros países elegeram líderes com a cara de seus países - Evo Morales na Bolívia, o casal Kirchner na Argentina, Fernando Lugo no Paraguai, Rafael Correa no Equador e Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil. Todos são entrevistados por Stone, que como Michael Moore em seus filmes, também se faz presente.

Na entrevista a seguir, concedida ao UOL Cinema por telefone desde Buenos Aires, onde Stone foi lançar o filme, o cineasta responde a críticas e ataca pesadamente os meios de comunicação, que para ele são o principal instrumento de propaganda e dominação americana na região. "O filme é destinado aos 80% de pessoas que não são representados nesse tipo de filme, os 80% que foram beneficiados pelas políticas desses novos líderes", diz ele. A seguir, os principais trechos.

UOL Cinema - Por que decidiu fazer um filme sobre a geopolítica sul-americana? Quando teve essa ideia pela primeira vez
"Os líderes latino-americanos representam uma mudança", diz Oliver Stone sobre "Ao Sul da Fronteira"

Oliver Stone - Eu sempre me interessei pela América Latina. Fiz "Salvador" (1986), sobre a Guerra na América Central, em El Salvador. Visitei muitos países [da região] ao longo desses anos. Fiz "Comandante"(2003), sobre Fidel [Castro], com uma hora e meia, deu muito trabalho. Depois, eu fiz "Looking for Fidel" e, agora, "Ao Sul da Fronteira". É uma série de seis documentários nos quais estou trabalhando. Tenho mais dois: um terceiro filme sobre Castro, agora na velhice, e também um grande projeto chamado "Secret History of United States", com dez horas de duração, para a televisão americana, que sai no início do próximo ano. Estou preocupado com o mundo e com a busca da verdade. O documentário é apenas uma parte da minha carreira. E a ficção, o drama com atores, é outra. Tento dividí-las porque essa é uma grande história, "Ao Sul da Fronteira". É uma história imensa, que os americanos não conhecem. Eles não sabem nada sobre isso. Eles ouvem uma versão completamente falsa sobre [o presidente venezuelano Hugo] Chávez nos meios de comunicação americanos. Eles não sabem nada sobre a Argentina, não sabem sobre a disputa de Nestor Kirchner contra o Fundo Monetário Internacional na América do Sul - [os argentinos] promoveram grandes mudanças no modo como fazem negócios. Não sabem que a Bolívia quer seus próprios recursos, sobre o Equador. Não sabem nada a respeito disso. Só sabem sobre a Colômbia e o México como [focos da] guerra contra as drogas.É tudo o que sabem. E é muito triste para mim que tenham essa imagem da América do Sul.

UOL Cinema - Uma das principais críticas em torno do filme aqui no Brasil é de que "Ao Sul da Fronteira" traz uma visão pronta, quase uma tese.

Oliver Stone - É claro que vão dizer isso. O filme vai ser politicamente criticado. São meios de comunicação muito fortes e poderosos. Se ficar estabelecido que eles não gostam de Chávez ou de Lula, certamente perseguirão o filme, é inevitável. Não posso me importar com isso. O filme é destinado aos 80% de pessoas que não são representados nesse tipo de filme, os 80% que foram beneficiados pelas políticas desses novos líderes. E por falar nisso tivemos uma tremenda exibição do filme em Cochabamba, na Bolívia, com seis mil pessoas. Nunca na minha vida estive numa sala com seis mil pessoas vibrando e aplaudindo. E também na Venezuela, com três mil pessoas. É algo para ser visto. É preciso entender que os filmes existem para as pessoas. E elas meio que ficam enterradas, escondidas. Especialmente os pobres, que não são ouvidos. E esses líderes representam uma mudança.

UOL Cinema - Os críticos acusam o filme de não ouvir o outro lado. Mas existe também uma confusão em torno do que é documentário e o que é tele-jornalismo.

Oliver Stone - Tive esse problema durante anos. Fiz o retrato de [Fidel] Castro, que nunca niguém entrevistou do jeito que o entrevistei. Nunca ninguém viu o lado íntimo, o lado mais próximo, de Castro da maneira como mostramos. E fui criticado por não ter [produzido] um documentário político mostrando suas falhas. Eu nunca teria contado essa história se não tivesse chegado até lá e ganhado sua confiança. Você está certo, eles querem jornalismo, mas também acho o jornalismo falso, por que nos dá uma falsa dualidade. Por exemplo, a BBC vai até a Venezuela para fazer um documentário sobre Chávez. E só pergunta sobre coisas ruins, nunca nem uma vez nada positivo. [Risos]. A verdade é que a economia da Venezuela estourou depois da tomada da companhia de petróleo, até a recessão de 2009, subiu em níveis de mais de 60%. A mesma coisa com a Argentina, que fez tudo errado. Eles foram contra o Fundo Monetário Internacional e, ainda assim, a economia deles ficou louca. Foi muito bem. Essas coisas, muito americanos e, menos ainda, muitos sul-americanos não sabem, não reconhecem e não querem [reconhecer]. É muito rígido aqui, um sistema muito estranho. Porque os meios de comunicação na Venezuela são tão eloquentes e todos os veículos são privados. No Brasil, na Venezuela, na Argentina. Grandes cadeias, grandes famílias, eles são como os oligarcas. Eles são donos dos meios de comunicação, das emissoras de televisão. E eles os usam para interesse o próprio. E eles mentem. E o Departamento de Estado americano concorda com eles porque querem controlar a região e o fazem. Eles fazem isso há 150 anos. O Departamento de Estado fornece o material e os meios de comunicação americanos, as emissoras e as agências publicam as histórias sobre todas essas pessoas. Até mesmo Lula, que era [visto como] a "boa esquerda" sul-americana, agora é visto como a "má esquerda" por causa de sua posição a respeito do Irã, o que mostra quão louca é essa situação. Novamente, falando sobre sanções contra o Irã, o mundo nunca vai chegar a um estado de paz enquanto tivermos essas posturas ideológicas rígidas dos meios de comunicação. Eles estão matando a possibilidade de negociação e consenso.

UOL Cinema - Algo mudou em sua visão sobre esses líderes depois que os encontrou? Falo especificamente de Hugo Chávez e o presidente Lula.

Oliver Stone - Não. Não fiz isso baseado em ideias pré-concebidas. Não acredito mais nos meios comunicação americanos. Tive minhas próprias experiências com eles. E acho que eles foram tão negativos em relação a Chávez que nem mencionaram os outros países. Você vai e volta e quando fui a Venezuela vi um outro país. Aliás, além disso, o filme não é sobre Chávez. Falei de outros países até para ter outras pessoas falando. O filme tem que falar por si só. Fico impressionado com o fato de que as pessoas dizem que não há críticas no filme. Francamente, há um bocado de críticas a eles [os presidentes] no filme, se olhar mais atentamente. Mas essas pessoas nunca parecem satisfeitas. Há muita crítica ao governo de Chávez no filme, tanto por parte dos americanos quanto dos colaboradores dos americanos na Venezuela.